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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

MP-SP recorre à promotoria de Munique no caso Siemens

Promotores pedem às autoridades judiciais da Baviera, onde a multinacional tem sua matriz, informações que possam ajudar nas investigações sobre o cartel metroferroviário. Cooperação pode levar a congelamento de bens.

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) vai buscar uma cooperação com a promotoria da cidade de Munique, na Alemanha, para a obtenção de informações que possam ajudar no processo sobre o cartel metroferroviário em São Paulo. A multinacional alemã Siemens delatou o esquema, do qual faria parte, às autoridades brasileiras em agosto.
Os promotores da capital da Baviera – onde a Siemens tem parte de sua matriz – deverão receber a solicitação do órgão paulista em cerca de 15 dias, segundo fontes do MP-SP ouvidas pela DW Brasil. Mais detalhes sobre o pedido de cooperação não puderam ser revelados, já que as investigações do caso correm sob sigilo.
"O pedido poderia envolver o congelamento de ativos, se houver como rastrear esse dinheiro que a Siemens ganhou no Brasil com essas irregularidades supostamente cometidas. Mas para isso é preciso que o Brasil apresente um indício de prova robusto", disse à DW uma fonte da área de cooperação jurídica internacional brasileira. "Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer."
As investigações do Ministério Público – que verificam também o eventual prejuízo causado ao patrimônio público pelo suposto cartel – devem durar pelo menos seis meses. Elas envolvem, segundo as fontes, dezenas de inquéritos civis, divididos entre dez promotores.
Em agosto, a Siemens delatou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), dentro de um programa de "delação premiada", um cartel em licitações para a compra de equipamento ferroviário e para a construção e manutenção de linhas de trens e metrô no Distrito Federal e em São Paulo.
O escândalo foi mais uma na longa lista de polêmicas envolvendo a multinacional alemã, já condenada em outros países por conduta contra a livre concorrência.
O caso envolvendo o metrô de São Paulo pôs em dúvidas os esforços anticorrupção da multinacional alemã. Há alguns anos, um megaescândalo de propina levou a Siemens a trocar quase toda a diretoria e a pagar multas bilionárias na Alemanha. A empresa, na época, havia prometido mudar, mas o novo caso no Brasil pôs em questão a promessa, feita em 2007.

DW.DE

terça-feira, 7 de maio de 2013

Brasil se inspira na Alemanha para impulsionar inovação na indústria


Governo pretende construir 23 institutos de inovação para atender à demanda industrial. Parceria com o instituto Fraunhofer vai garantir a certificação e avaliação do trabalho dos novos institutos brasileiros.
Quando David Carlos Domingos chegou à Alemanha para fazer seu mestrado, em 2005, ele não imaginava que ajudaria o Brasil a implantar a receita alemã de sucesso que garante o caráter inovador do país. Hoje, como pesquisador do Instituto Fraunhofer em Berlim, o engenheiro mecânico de 31 anos é a principal peça para fazer dar certo em seu país de origem a engrenagem que funciona tão bem entre os alemães. "A Alemanha trabalha com muita pesquisa aplicada para a indústria e inovação. E esse modelo queremos desenvolver no Brasil."
O Brasil, com seus quase 200 milhões de habitantes espalhados por 8,5 milhões de quilômetros quadrados, depende do agronegócio. O país é o maior fornecedor mundial de carne, soja e café. A Alemanha tem 81 milhões de habitantes e um território 23 vezes menor que o Brasil.
Por décadas, os alemães lideraram o ranking mundial de exportação graças ao comércio de máquinas pesadas e produtos químicos. "É um país que exporta valor agregado, e não commodities, como o Brasil. E o grande segredo é essa junção entre universidade, pesquisa aplicada e indústria", completa David.
Para mudar um pouco esse perfil, o governo brasileiro foi buscar inspiração na Alemanha e decidiu construir 23 institutos de inovação espalhados pelo país. Desde o Amazonas, que ganhará um centro de microeletrônica, até o Rio Grande do Sul, que será sede do instituto de polímeros.


Diminuir o abismo

A iniciativa é do Movimento Empresarial para Inovação, o MEI, formado pelas 50 maiores empresas brasileiras. A ideia é montar institutos de pesquisa que atendam à demanda industrial nacional. Para isso, uma parceria com o instituto Fraunhofer foi assinada no ano passado: o órgão alemão vai trabalhar no acompanhamento, certificação e avaliação do trabalho dos brasileiros.  
As pequenas e médias empresas precisam muito desse suporte, avalia o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. Pelo acordo, as companhias poderão apresentar suas demandas aos institutos credenciados, que terão a missão de criar soluções. O novo projeto deve diminuir o abismo entre os laboratórios das universidades e a linha de produção das indústrias.
Na maior parte dos casos, as universidades no Brasil fazem pesquisa básica, que não têm aplicação imediata no mercado. E as empresas, a maioria multinacionais, não têm interesse em trabalhar com as universidades no país e desenvolver produtos no Brasil. "Queremos fechar esse abismo. Pegar a pesquisa feita na academia e transferi-la para a indústria e, assim, suprir a necessidade que a indústria tem para inovação tecnológica", comenta David.
Para cumprir o objetivo, o governo vai investir 1,9 bilhão de reais. A maior parte do dinheiro irá para a modernização e ampliação dos institutos que serão pólo de pesquisa. A estrutura do Senai, escola profissionalizante mantida pela Confederação Nacional das Indústrias, será usada como base dos novos centros.
Do café para a pesquisa de ponta
O Fraunhofer reúne 60 centros de pesquisa em todo o mundo. Alguns deles já desenvolvem projetos específicos no Brasil, como nos setores calçadista, têxtil e automotivo. Na Alemanha, a instituição está envolvida nos processos mais importantes da indústria alemã na área da tecnologia.
O governo brasileiro admite que, no Brasil, o setor privado ainda inova pouco. A expectativa é que a parceria com o Fraunhofer estimule ainda o registro de patentes e facilite a transferência do conhecimento entre as empresas.
Segundo o planejado, os novos centros de pesquisa e inovação no Brasil terão oito anos para se tornarem sustentáveis. Nesse tempo, eles terão que retornar o investimento feito e com projetos sólidos que ajudem a indústria a se modernizar. A partir de então, o Brasil poderá ser descrito também por sua capacidade tecnológica, espera David. "O Brasil está crescendo agora, mas devido ao setor primário de commodities. No futuro, a gente espera que seja pelo fato de estarmos inovando e agregando valor aos nossos produtos, às nossas mercadorias."

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

COOPERAÇÃO: Brasil e Alemanha assinarão acordo previdenciário


Representantes do governo brasileiro e alemão assinarão no dia 6 de março a proposta de ratificação do acordo firmado entre Brasil e Alemanha na área de previdência social. O projeto foi aprovado no final de 2012 pelo plenário da Câmara dos Deputados e pelo Senado.
Firmado em Berlim, em dezembro de 2009, o acordo garante aos trabalhadores brasileiros e alemães, o acesso ao sistema previdenciário do país onde estiverem residindo, podendo somar os tempos de contribuição em cada um dos sistemas para atingirem o tempo mínimo necessário para conquistarem o direito à aposentadoria e outros benefícios previdenciários.
O acordo deverá grarantir a proteção previdenciária para cerca de 90 mil brasileiros que vivem na Alemanha e aos 27 mil alemães radicados no Brasil.
Deste modo brasileiros que vivem na Alemanha e alemães que moram no Brasil poderão incluir em seus cálculos de aposentadoria os anos em que contribuírem para o sistema previdenciário no país onde se encontram.

© Juliana Echer Manto (Centro Alemão de Informação)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

CURSOS ACADÊMICOS: Inaugurada em Bochum a carreira de Reabilitação de Minas


O conceito de “mudança estrutural” se conhece há décadas na Bacia de Ruhr. No entanto, até agora não se havia aberto uma formação acadêmica específica sobre os usos posteriores dos territórios de minério, uma vez exaurida a extração. 

A Escola Técnica Superior (TFH) Georg Agricola, situada em Bochum, abre novos horizontes nesse terreno. A partir do semestre estio, será a primeira universidade alemã a oferecer um mestrado em Engenharia Geológica e Reabilitação de Minas. Ali podem cursar até 40 estudantes por semestre, para aprender de que modo é possível reabilitar de forma útil – e isso implica também o uso econômico exitoso – os territórios de exploração extrativista a partir do esgotamento e fechamento das minas.

O professor Christian Melchers, chefe da cátedra da nova carreira, insiste no fato de que logo agora se faça, pela primeira vez, um seminário com estas características, e estima que “a decisão pode se dever à confirmação do fechamento definitivo da exploração de hulha subsidiada até 2018”. De acordo com este geólogo e paleontólogo diplomado, de 35 anos, a Alemanha desempenha um “papel precursor” mundial no que se refere ao desenvolvimento dos territórios de minério, uma vez finalizada a exploração.

O novo mestrado está destinado a engenheiros jovens com uma licenciatura que já tenham emprego, mas aspirem melhorar suas chances e qualificações no mercado de trabalho por meio da capacitação. Nesta carreira, que dura seis semestres e abre as portas a um doutorado, os conteúdos se vincularão principalmente às denominadas “cargas perpétuas” que origina a mineração; ou seja, temas como a recuperação da água, a estabilização de poços ou o saneamento de superfícies contaminadas.

A cátedra de Melchers será financiada durante cinco anos pela Fundação RAG, que assume assim sua responsabilidade pelas conseqüências e os custos da mineração na região.

Também se prevê a construção de um Centro de Competências para a Reabilitação de Minas. Ali se retomarão “temas e considerações científicas vinculadas às cargas perpétuas”. Este centro também contará com o respaldo financeiro da Fundação RAG a partir de 2019, segundo informa Bärbel Bergerhoff-Wodopia, integranteda junta diretiva da RAG.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Governo alemão expressa solidariedade às vítimas da tragédia em Santa Maria


Em Santiago, Angela Merkel transmite condolências à presidente Dilma Rousseff. Ministro alemão do Exterior se diz abalado: "Nossos pensamentos estão com as muitas vítimas e suas famílias, parentes e amigos".
O governo alemão expressou solidariedade às vítimas da tragédia em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde pelo menos 232 pessoas morreram durante um incêndio numa boate, na madrugada deste domingo (27/01).
Em Santiago, no Chile, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, transmitiu suas condolências à presidente Dilma Rousseff, divulgou o governo alemão. As duas líderes participaram do encontro de cúpula entre a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e União Europeia (UE). Dilma interrompeu sua participaçãono encontro e retornou mais cedo ao Brasil por causa da tragédia.
Também o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, mostrou-se chocado com a incidente. "Estou profundamente abalado por causa dessa tragédia horrível e gostaria de externar meus profundos sentimentos aos brasileiros", afirmou, segundo o ministério.
"Nesse momento triste, nossos pensamentos estão com as muitas vítimas e suas famílias, parentes e amigos", declarou Westerwelle em Berlim.
AS/dpa/afp
Revisão: Mariana Santos

sábado, 20 de outubro de 2012

AS OKTOBERFEST NO BRASIL


Dinheiro e diversão

A primeira Oktoberfest foi inaugurada no dia 17 de outubro de 1810, em Munique. A maior festa da cerveja do planeta ganhou sua versão brasileira somente 174 anos mais tarde. Blumenau criou a Oktoberfest depois de ter sofrido duas fortes enchentes, entre 1983 e 1984. O objetivo era recuperar a economia local e animar os moradores. Quase 30 anos depois, a festa continua gerando lucro – e diversão.

Terras de Hermann Blumenau

Blumenau é conhecida pelas casas em estilo europeu, herança dos primeiros imigrantes alemães que chegaram por lá nos idos de 1850. A cidade catarinense com pouco mais 300 mil habitantes ganhou esse nome por causa do farmacêutico alemão Hermann Blumenau, um dos primeiros colonos da região.

A segunda maior do mundo

A Oktoberfest de Blumenau é a segunda maior do mundo e a segunda maior festa popular do Brasil, depois do Carnaval. Durante os dias de Oktoberfest, a cidade catarinense recebe cerca de 600 mil foliões brasileiros e estrangeiros. Neste ano, os ingressos custam entre 6 e 20 reais. Mas quem chegar de "Dirndl" (vestido típico) ou "Lederhose" (calça de couro) entra de graça.

Os mascotes

Todos as Oktoberfest celebradas no Brasil têm seus próprios mascotes – tradição brasileira que não existe na Alemanha. Os bonecos participam de todas as atividades festivas e logo ganham a simpatia das crianças. Na cidade de Igrejinha, por exemplo, os mascotes são Hans e Hannah. Em 2008, para comemorar seus 10 anos, eles ganharam um casal de herdeiros: Frederico e Alice.

A rainha e as princesas da festa

A rainha da Oktoberfest e suas princesas representam suas cidades ao longo de todo o ano. Cada celebração tem a sua própria tradição. Em Blumenau, pode-se ver a influência dos concursos de beleza internacionais dos Estados Unidos.

"Belezas reais"

A cidade de Itapiranga também tem sua rainha e suas duas princesas da Oktoberfest (foto). Apesar de não existir na Oktoberfest de Munique, a escolha das rainhas e princesas é tradição na região de vinhedos dos rios Reno e Mosela, na Alemanha. As belas moças representam o vinho alemão durante um ano.

Desfiles de rua

Os desfiles de rua são uma das maiores atrações da Oktoberfest. Em algumas cidades, como em Santa Cruz do Sul, há até mais de uma parada. Os carros alegóricos extravagantes, os trajes típicos coloridos e as bandas de música, assim como os bonecos e o carro da realeza, lembram os desfiles carnavalescos que acontecem na Renânia.

Dança típicas

Os grupos folclóricos fazem suas apresentações durante os desfiles e também nos pavilhões – sempre ao som de bandas típicas e sob os aplausos do público. As mulheres vestem o tradicional "Dirndl" e os homens, "Lederhose".

Jogos Germânicos

Nas Oktoberfest do Brasil há muitas atrações que não existem em Munique. Entre elas estão os jogos germânicos. As modalidades incluem corrida de carrinho de mão, serra de duas pontas, cabo de guerra e, como aqui em Santa Cruz do Sul, bolão de bola presa.

Minidirndl

Na Alemanha, o tradicional "Dirndl" vai até a altura do joelho. Já no Brasil, eles costumam ser mais curtos. Uma razão para isso é o clima. Em outubro a temperatura chega aos 30 graus – na Alemanha, não passa dos 20 graus.


Prost!

Os Concursos de Tomadores de Chope em Metro são muito populares nas Oktoberfest do Brasil. Vence que beber um metro de chope em menos tempo, sem derramar ou tirar a tulipa da boca. O vencedor é anunciado no último dia da festa. A cerveja vem de fábricas nacionais ou de cervejarias locais com nomes alemães, como "Unser Bier", "Eisenbahn" ou "Wunder Bier".

Autoria: Christina Weise | Edição: Alexandre Schossler/Mariana Santos

terça-feira, 16 de outubro de 2012

PESQUISADORES: Programa de pós doutorado com novas inscrições


A Capes e a Fundação Alexander von Humboldt, da Alemanha, lançaram um novo edital para o seu programa de bolsas para pesquisadores. Os candidatos tem até o dia 31 de janeiro para se inscrever.
As bolsas são de pós-doutorado, destinadas a pesquisadores em início da carreira acadêmica, que tenham completado seu doutorado há menos de quatro anos; e de pesquisador experiente, com foco em acadêmicos com perfil de pesquisa definido, que tenham completado seu doutorado há menos de 12 anos.
Os escolhidos terão direito a uma bolsa mensal, auxílio-instalação, auxílio-deslocamento, curso de alemão quando necessário, subsídio para dependentes e auxílio para mobilidade.
A duração da bolsa varia de 6 a 24 meses para pós-doutorado e de 6 a 18 meses para pesquisadores experientes. Neste caso a estadia poderá ser dividida em até três períodos de no mínimo três meses cada.
Mais informações e inscrições através do site:http://www.capes.gov.br/cooperacao-internacional/alemanha/capes-humboldt

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Da Alemanha para o Brasil, do Brasil para o mundo

Os Schürmann são muito conhecidos no Brasil por suas aventuras pelo mundo, sempre a bordo do veleiro Aysso. Desde abril de 1984 – quando resolveram abandonar sua vida estável e deixar casa, carro e amigos para trás para viver a bordo do barco – eles já navegaram por três oceanos e passaram por 45 países.


No mesmo ano que a Alemanha comemora os 180 anos da imigração alemã no Brasil, a Família Schürmann celebra seus 20 anos de vida no mar. A comemoração não podia ser de outra maneira: desde abril deste ano eles estão navegando por todo o litoral brasileiro – de Florianópolis até Fortaleza – onde chegarão em meados de outubro deste ano.
Hamborn: berço dos Schürmann
A vida desta família, entretanto, começou ainda na Alemanha, numa pequena cidade na região do Ruhr, bem próximo ao Rio Reno. Ali nasceu, em 1907, e permaneceu até os 16 anos Wilhelm Theodor Schürmann, filho de Ana e Theodor Schürmann. Em 1923 ele partiu – juntamente com os pais e irmãos – em direção ao continente sul-americano, em busca do sonho de uma vida mais tranqüila e segura pós-Primeira Guerra Mundial.
Tendo embarcado em Hamburgo no navio Tucuman na antevéspera de Natal daquele ano, a família chegou em janeiro de 1924 ao porto do Rio de Janeiro, mas a ancoragem serviu somente para o abastecimento da embarcação. Foi no porto de Santos (São Paulo) que eles puderam descer, pela primeira vez, em solo brasileiro, uma estada muito breve, pois a viagem seguiria até Paranaguá, já na costa paranaense.
De lá, a família seguiu até São Francisco do Sul (Santa Catarina) e posteriormente até Itajaí, onde finalmente desembarcou para oficializar sua chegada junto ao setor de imigração. A viagem prosseguiu via Blumenau, Riachuelo, Lontras, Matador, Rio do Sul e Mosquito, até Serrinha, onde se acomodaram no rancho que haviam comprado antes de vir para o Brasil.
Conquistando espaço em território nacional
Wilhelm Schürmann tratou de dar início às suas atividades no país. Apaixonado por futebol, começou logo a freqüentar o Clube Concórdia de Rio do Sul, time da região. Depois de algum tempo já participava dos treinos, todos os finais de semana, para os quais tinha de percorrer cerca de 60 quilômetros, ida e volta, numa carroça adquirida por seu pai.
O jovem alemão ficou em Serrinha durante quatro anos, tendo partido então em busca de novas oportunidades. Conseguiu emprego como agrimensor, em Lages, mas depois voltou a jogar na equipe titular do Sociedade Desportiva Blumenauense, atual Olímpico.
Também exerceu a profissão de foguista, mecânico de locomotivas, além de ajudar na construção de uma ponte férrea sobre o Rio Itajaí, até ser contratado para fazer um trabalho administrativo junto ao almoxarifado da empresa construtora, em Blumenau. Foi durante este período que conheceu Avenina de Oliveira, com quem se casou em janeiro de 1932. Em 1939, o casal mudou-se para Florianópolis, onde teve seus seis filhos: Vilmar, Avenina, Leonor, Vilberto e os gêmeos Vilfredo e Ana Luiza.
Vilfredo Schürmann: a busca de um sonho
Vilfredo Schürmann, um dos filhos mais novos, trabalhou alguns anos como consultor financeiro em diversas empresas. Formado em Economia, casou-se no final da década de 60 com a carioca Heloisa Carneiro Ribeiro.
No início da década de 70, o casal recebeu um convite para passar uma semana na ilha de Saint Thomas, no Caribe. Lá, os dois tiveram sua primeira oportunidade de navegar a bordo de um veleiro, o que foi suficiente para que se apaixonassem pela experiência e esboçassem o sonho de ter um veleiro próprio.
Enquanto se programavam para concretizar tal sonho eles tiveram três filhos: Pierre, David e Wilhelm, hoje com 36, 30 e 28 anos, respectivamente. Os três cresceram em terra, mas sempre sabendo que um dia partiriam rumo aos oceanos do mundo com seus pais. Durante uma década o casal preparou-se – emocional e economicamente – para deixar tudo para trás em busca de uma vida no mar.
Vilfredo afirmava que para concretizar esse sonho era preciso marcar uma data. Era necessário haver um momento de suas vidas que oficializasse o início de uma nova etapa. Ficou determinado que, quando David completasse 10 anos, eles partiriam. O dia escolhido, entretanto, não foi o mais adequado.
O aniversário de David caía numa sexta-feira 13, símbolo de mau agouro para os velejadores. A partida foi, portanto, adiada para o dia 14 de abril de 1984. Vilfredo, Heloisa, Pierre, David e Wilhelm içaram as velas de seu veleiro de 55 pés (16,7 metros), deixando para trás uma história para dar início a outra.
Uma aventura pelo mundo
O planejamento inicial previa dois a três anos a bordo do barco. A experiência, entretanto, foi tão intensa que eles acabaram optando por ficar dez anos no mar, regressando ao Brasil somente em 1994. Durante esse tempo, as crianças estudaram por correspondência, aproveitando os próprios pais como professores.
No meio do caminho, Pierre e David desembarcaram para estudar, o primeiro nos Estados Unidos (Administração de Empresas) e o outro na Nova Zelândia (Cinema e Televisão). Wilhelm continuou a bordo e, atualmente, é campeão de windsurf – em diversas categorias.


Após seu regresso em 1994, a família planejou durante três anos seu segundo grande projeto: uma nova volta ao mundo, desta vez seguindo a rota do navegador português Fernão de Magalhães. Eles partiram em 1997 para mais esta viagem, que durou três anos. Chegaram a Porto Seguro, na Bahia, no ano de 2000, bem a tempo para as comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil.
Durante esse período eles puderam compartilhar suas emoções e vivências através de um programa dominical de televisão, além de propagar seu programa de ensino online para escolas do Brasil e de mais de 44 países em diversas partes do mundo.
Reconhecimento internacional
O site do projeto chegou a receber na época uma indicação da Unesco – órgão das Nações Unidas para educação, sociedade e cultura – como ferramenta educacional.
Ao longo de todos esses anos no mar, os Schürmann perceberam que o cotidiano das empresas não é muito diferente das vivências a bordo do veleiro. Com base em suas experiências, realizam palestras empresariais – tanto no Brasil quanto no exterior – além de workshops com empresas que sentem a necessidade de treinar seu pessoal para enfrentar desafios.

"Sapateiros" gaúchos têm origem alemã

Artesãos vindos da Alemanha foram os primeiros capitalistas do Vale dos Sinos. Influência alemã na indústria coureiro-calçadista permanece até hoje.


A história dos 15 municípios do Vale dos Sinos está estreitamente vinculada à indústria coureiro-calçadista, que se desenvolveu na região a partir da vinda dos primeiros imigrantes alemães, em 1824. Essa indústria passou por muitas transformações, com fases de grande sucesso e profundas crises, mas não perdeu de vez as suas raízes germânicas. Esta avaliação foi feita pelo professor Ênio Klein, consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), em entrevista à DW-WORLD.
A tradição de fabricar calçados, trazida da Alemanha, encontrou terreno fértil no Rio Grande do Sul. Segundo Klein, como os portugueses, espanhóis e gaúchos já criavam gado para produção de carne na fronteira oeste do Estado, havia pele em abundância. Da pele passou-se a produzir o couro e, deste, os artefatos de couro, como selas, arreios, mochilas para cavalo, utensílios para montaria e para as carroças, bem como botas para os regimentos de infantaria.
Canhão puxado a tira de couro
Para Klein, "o cavalo e a guerra foram os primeiros mercados para os produtos do couro, porque no Rio Grande do Sul sempre tivemos muitos conflitos entre o Brasil e a bacia do Prata". Ele cita, por exemplo, a guerra no Uruguai em 1828, a Revolução Farroupilha (1835–1845), a guerra contra a Argentina (1850–51), quando o Brasil contou com a ajuda dos Brummer, e a Guerra do Paraguai (1865–1870). "Até para puxar o canhão usavam-se tiras de couro", lembra Klein.
Os "sapateiros", como eram chamados os pioneiros até o início do século 20, trabalhavam para abastecer o mercado local e regional. Partindo do artesanato, da manufatura inicialmente caseira, passaram a industrializar a produção, criando as primeiras fábricas. Na opinião de Klein, o imigrante pobre, que veio trabalhar a terra, mas também era artesão, foi "o primeiro capitalista na região".
Depois da Segunda Guerra Mundial, como havia o grande mercado brasileiro a conquistar, as empresas do setor desenvolveram também sapatos mais socais – antes só faziam botas militares. Segundo o consultor da Abicalçados, o Vale do Rio dos Sinos tem hoje a maior concentração de indústrias coureiro-calçadistas de toda a América. "A formação desse capitalismo, fundado pelo colono-artesão, que passou a empregar gente da mesma origem, quase sem conflito entre capital e trabalho, ainda não foi devidamente pesquisada", constata Klein.
Segundo ele, o imigrante alemão impulsionou o avanço industrial, através de seu espírito comunitário, pela criação de escolas técnicas, centros tecnológicos, cooperativas de crédito, formação da mão-de-obra e realização de feiras. "Esse enorme esforço coletivo foi decisivo para o desenvolvimento. Hoje há empresas gaúchas expandindo suas atividades até para o Nordeste, onde no passado teve início o ciclo do couro. Foi, portanto, uma contribuição para todo o Brasil, não apenas para o Vale dos Sinos ", diz o professor.
Influência duradoura
Klein divide a contribuição alemã ao desenvolvimento industrial e à formação da nação brasileira em duas fases. "Até a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nos mandou gente, colonos; nos últimos 50 anos, ela nos mandou capital." Hoje estima-se que em torno de 20% do PIB brasileiro é gerado por empresas ligadas à Alemanha, diz.
A nova geração de executivos que comanda a indústria calçadista despediu-se dos métodos de produção e gerenciamento dos antigos "sapateiros", mas o que ficou, segundo Klein, é a consciência de qualidade e o espírito cooperativo. "A influência fica. Os novos manager não negam a sua origem; pelo contrário, são orgulhosos de ser descendentes de alemães. É claro que, no jogo com a Alemanha, são sempre brasileiros", afirma.
Klein lamenta que a indústria coureiro-calçadista gaúcha, sobretudo no período de euforia dos anos 70 e 80, tenha se subordinado excessivamente aos interesses dos importadores norte-americanos, em detrimento das relações comerciais com a Alemanha. "Isso foi um erro e um desrespeito, não só para com o mercado alemão, mas sim até com o mercado brasileiro", diz.
Sapatos verdes
Nos últimos anos, depois que a produção chinesa começou a tomar o lugar do sapato brasileiro nos Estados Unidos, o interesse pela Alemanha e União Européia está aumentando. Na tentativa de redirecionar sua inserção no mercado internacional, os "sapateiros" gaúchos confrontam-se, justamente no país de seus antepassados, com a necessidade de terem também uma consciência ecológica.
"Todos os curtumes do Rio Grande do Sul hoje têm estações de tratamento. Essa preocupação com o meio ambiente é forte, sobretudo, no Vale dos Sinos, onde as prefeituras, entidades ecológicas e sindicatos se preocupam, principalmente, com os resíduos sólidos da indústria coureiro-calçadista. A questão dos resíduos líquidos está praticamente resolvida. Isso é importante, porque o mercado alemão exige altos padrões ecológicos e sociais na fabricação dos produtos importados."

As marcas dos alemães no Espírito Santo

Desde 1847, alemães marcam presença no Estado que tem a maior concentração de pomeranos do Brasil. Influência dos imigrantes deixou marcas e manifesta-se em muitos setores da vida capixaba.


Até meados do século 19, somente a faixa costeira do Espírito Santo havia sido ocupada. Os primeiros a desbravar a serra no interior do Estado foram imigrantes da região de Hunsrück na Alemanha. Eram 39 famílias, 26 luteranas e 13 católicas, que em 1847 chegaram ao Brasil com a expectativa de se fixar no Sul do país, onde o clima era semelhante ao de sua terra natal. D. Pedro II, reconhecendo a necessidade de desenvolver o maciço central do Espírito Santo, ainda habitado por índios botocudos, resolveu enviar o grupo de 163 récem-chegados a essa área montanhosa e de clima ameno, para fundarem a colônia de Santa Isabel.
Desânimo inicial e conflito religioso
A princípio, cada família recebeu do governo uma parcela de 50 hectares de terra para o cultivo, além de uma ajuda de custo; não era uma doação, mas um empréstimo a ser pago a prazo. Após a demarcação das terras, cada família construiu uma primeira casa, de barro e folhas de palmeiras.
A grande distância entre as famílias, os perigos da mata, a dificuldade de adaptação à alimentação estranha (feijão preto, mandioca e caça), as cobras, a praga dos insetos e a falta de apoio por parte das autoridades contribuíram para o desânimo inicial. Nos primeiros dez anos, a mortandade chegou a superar a natalidade, as 38 famílias com 163 pessoas passaram para 39 famílias com 158 pessoas.
Além de todas as dificuldades iniciais, a convivência entre as famílias católicas e luteranas se deteriorou. A Vila de Viana, centro mais próximo da colônia de Santa Isabel, havia sido colonizada por católicos açorianos que se recusavam a negociar com os luteranos, dando exclusividade aos colonos católicos. O clima de hostilidade entre os grupos dividiu a colônia e retardou o desenvolvimento social das comunidades.
Os católicos, que inicialmente freqüentavam a igreja de Viana, se opunham à construção de uma igreja luterana. Os luteranos, resistindo à oposição, construíram sua primeira igreja em uma localidade um pouco mais acima de Santa Isabel, dando origem à atual Domingos Martins. Foi a primeira igreja luterana do Brasil.
Prosperidade e crescimento
Em 1858, o ex-oficial prussiano Adalberto Jahn assumiu a administração da colônia de Santa Isabel e os problemas econômicos de maior urgência começaram a ser resolvidos. Além disso, a reorganização social em torno da igreja e a criação de escolas trouxe certa estabilidade social. Logo vieram outros imigrantes atraídos pela promessa de terras e trabalho.
Em meados de 1860, a colônia de Santa Isabel já era constituída por 628 pessoas, imigrantes da mesma região dos pioneiros, bávaros e prussianos entre outros. Os colonos já colhiam dez mil arrobas de café e os alojamentos temporários foram substituídos por casas mais resistentes. A vida começou a melhorar.
Com a prosperidade, a tendência inicial se inverteu e a natalidade passou a superar a mortalidade, de tal forma que em 1912 a taxa anual de crescimento vegetativo entre os colonos era de 4% e a mortalidade, mínima. Famílias com 12 a 20 filhos eram comuns.
A colônia de Santa Isabel ainda se encontrava isolada na região serrana do Espírito Santo, quando uma nova leva de imigração deu início ao que mais tarde se tornaria um complexo de colônias européias bastante peculiar e relativamente desconhecido fora do Estado.
Santa Leopoldina – região de todas as Europas
D. Pedro II, animado com o sucesso da primeira empreitada, permitiu o assentamento de novos grupos de imigrantes. Surgiram novas colônias imperiais, como a de Santa Leopoldina em 1857, onde chegaram principalmente imigrantes da Prússia, Saxônia, Hessen, Baden e Baviera, além de outras regiões da Alemanha.
Com a grande leva de alemães, vieram também famílias de luxemburgueses, austríacos do Tirol, holandeses e suíços, entre outros. Hoje, encravadas nas encostas das montanhas, próximas a rios e cachoeiras e muitas vezes ainda cercadas pela Mata Atlântica, o visitante encontra vilas com o nome de Tirol, Nova Holanda, Luxemburgo ou Suíça.
A imigração durou até 1879, quando só em Santa Leopoldina os colonos e seus descendentes já eram cerca de sete mil, número que subiu para 18 mil em 1912. Em 1960, calculava-se a existência de cerca de 73 mil teuto-capixabas, ou seja, 6% da população do Estado. Em 1980 esse número já estava por volta de 145 mil. Hoje estima-se que vivem no Espírito Santo aproximadamente 250 mil descendentes de imigrantes alemães.

Casamento pomerano


Mesa farta, festa até o dia clarear e noiva de preto
O ritual do casamento pode começar meses ou até anos antes da festa, com a engorda de animais e cultivo e aquisição dos ingredientes. O convite é feito pelo hochditsbira, um dos irmãos da noiva, que sai a cavalo de casa em casa, todo enfeitado com fitas coloridas, levando uma garrafa de "rabo de galo", uma mistura de cachaças da região para servir aos convidados. Depois de um grito alertando para sua chegada, o hochditsbira declama o convite em "pomerod". Como sinal de aceitação do convite, uma moça da casa pega uma fita, que prende nas costas ou ombro do rapaz e oferece dinheiro pelo serviço.
Os preparativos para a cerimônia do casamento são feitos em mutirão, toda a comunidade participa e tudo acontece na casa da noiva: matam os animais, fazem a lingüiça e outras receitas de carnes tradicionais. Enquanto isso, um mastro bem alto é erguido para indicar aos convidados o local da festa. Ali fica presa uma bandeira com as iniciais dos noivos e umas garrafas com dinheiro. Mais tarde, na disputa de tiro ao alvo, o dinheiro vai premiar o melhor atirador. O primeiro tiro é do noivo.
Na noite anterior ao casamento, acontece o baile do quebra-louças. Uma senhora de idade, amiga da família da noiva, abre seu avental cheio de louça velha que se quebra aos pés dos noivos. Assim são espantados os maus espíritos e uma nova vida se inicia. A louça que fica inteira é guardada como símbolo de segurança. Ao som da concertina, todos dançam sobre os cacos enquanto os noivos tentam varrê-los para fora da sala. Os participantes dançam, comem miúdos de frango e bebem até a madrugada.
No dia do casamento, uma sexta-feira, parte pela manhã um comboio, antigamente a cavalo, hoje de carro ou na boléia de caminhão, decorado com flores e ramos, em direção à igreja. Reza a tradição pomerana que a noiva case de preto, segundo alguns, em respeito a todas as noivas violentadas pelos senhores feudais na Europa. Após a cerimônia, os noivos são recebidos de volta com uma salva de fogos e o tocador de concertina toca uma canção de boas-vindas, recebendo dos convidados uma gorjeta.
À espera de todos já está um mesa posta, repleta de assados, sopas, batata inglesa e doce, pratos de legumes, papa de arroz com leite com canela e bebidas. Os noivos se sentam em um extremidade, debaixo de um arco enfeitado com ciprestes e flores e ficam ali até que o último convidado tenha almoçado, é prenúncio de azar os noivos se levantarem antes que todos estejam satisfeitos. As mulheres dão aos convidados lembrancinhas cor-de-rosa para os solteiros e azuis para os casados, e assim também vão arrecadando dinheiro para as despesas.
Chega então o momento da fotografia, o quadro que vai compor parte da decoração tradicional da casa dos pomeranos. A fotografia é tirada com todos os presentes, normalmente em uma encosta para que todos possam caber na foto.
Ao final do dia acontece então mais um baile, aberto pelos noivos com o kranzaffdanza, a dança da grinalda. A noiva dança com todos os homens e, o noivo, com todas as mulheres da festa, os primeiros a dançar são aqueles que mais ajudaram nos preparativos. Durante a dança, três homens tentam tirar o véu da noiva para rasgá-lo e as mulheres os impedem, cobrindo a noiva com um lenço. Na manhã seguinte, depois da disputa de tiro ao alvo, o noivo derruba o mastro com um machado e encerra oficialmente a festa. Os noivos então, exaustos, coordenam o trabalho de limpeza da casa.
Tudo terminado, antigamente a noiva acompanhava o marido à sua nova casa levando os dotes: uma vaca, um cavalo selado, um baú com roupas brancas, vestidos e muita disposição para trabalhar. Já os homens recebiam dos pais um pedaço de terra de onde teriam que tirar o sustento para a nova família.

A dura batalha para construir a nova pátria

A realidade encontrada nas colônias nem sempre correspondia às promessas usadas para atrair imigrantes na Alemanha, como revela a saga de August König.


Atravessar o Oceano Atlântico era por si só uma aventura cheia de riscos. E o que dizer de colonizar um território ainda virgem? Ao chegar ao Brasil, o sonho de muitos dos imigrantes alemães esbarrava na realidade da falta de infra-estrutura e apoio para a implantação das colônias. Não foram poucos os pioneiros que se rebelaram.
August König foi um deles. O lavrador vivia em Neu Pouldorf (atual Nove Pavlovice), na região da Boêmia, na época parte do Império Austríaco e hoje da República Tcheca. Aos 32 anos, optou por tentar um futuro melhor no Sul do Brasil, através da companhia colonizadora com sede em Hamburgo.
Em 8 de maio de 1873, embarcou no porto alemão no navio Guttenberg com a esposa Therese, de 29 anos, e os filhos August, de quatro, e Maria, de um. Pouco mais de dois meses depois, a família König chegava à Colônia Dona Francisca (Joinville), em Santa Catarina.
Falsas promessas e família reduzida
Descobriram logo terem sido enganados com falsas promessas. A companhia colonizadora não possuía mais terras para distribuir. Juntamente com outros 70 imigrantes, August tomou a iniciativa de subir a serra. Foram abrindo o caminho até o planalto catarinense, onde escolheram um local para se instalar.
O pioneiro retornou a Joinville para buscar a família. No entanto, a esposa e o filho morreram no abrigo da companhia colonizadora. Mas August não podia mais desistir. Pôs a pequena Maria no lombo de uma mula, juntamente com seus pertences, e subiu a serra para a futura São Bento do Sul. Lá, recomeçou sua vida novamente como lavrador, mas depois abriu um salão de baile com bar e a primeira quadra de bolão da cidade.
Revolta de colonos
As dificuldades vividas na colônia revoltavam August. Além da legalização das terras, faltavam igreja, médicos e escola. O imigrante boêmio tornou-se um dos líderes dos colonos que se rebelaram no início de 1875. August e outros dois acabaram indo ao Rio de Janeiro para queixar-se ao governo imperial.
Um mês depois retornavam a São Bento sem ter conseguido "falar com o imperador" e resolver os problemas. No entanto, tiveram a oportunidade de relatar a situação ao embaixador alemão e ao cônsul austríaco, o que não ficou sem conseqüências. A questão chegou à Europa, e o governo da Prússia, assim como outros, conteve a emigração em massa para além-mar.
Mais tarde, August participou de outra revolta contra a direção da colônia de São Bento, reclamando solução para a miséria, a fome e a falta de pagamento dos trabalhadores que construíram a estrada ligando São Bento a Joinville.
Desta vez, o levante ganhou contornos violentos. O grupo fez o diretor da colônia como refém, forçou o comércio a fornecer mantimentos e desceu a serra em direção a Joinville. O movimento foi contido pela polícia. Os líderes da revolta foram presos e condenados a multas.
August casou então com Anália Eichendorf e teve mais cinco filhos, sendo que um deles nasceu morto. Novamente viúvo, o boêmio tomou Anna Wonke como sua terceira esposa, em 1895. August König morreu aos 83 anos em 1924.

O caminho de volta – Ou experiências de uma teuto-brasileira

Professora de alemão relata o reencontro com o idioma que herdou dos antepassados e a descoberta 'in loco' da cultura alemã.

Como neta de alemães, ou melhor de europeus falantes da língua alemã, desde o berço tive contato com a mesma. Meu avô materno, Frederico Deuter Filho, nasceu em 1902 em Stuttgart, e emigrou para o sul do Brasil com sua família aos sete anos. Apesar de não conhecê-lo, sempre ouvia histórias acerca das dificuldades que a família enfrentou, seja com a língua, cultura ou clima, mas principalmente com a precariedade de recursos ali disponíveis. Acredito que o maior choque quem viveu foi minha bisavó, que estava acostumada a um certo grau de conforto que nunca mais alcançou em toda a sua vida.
Meus outros avós, todos estrangeiros, vieram de antigas colônias alemãs na atual Polônia e Rússia. Assim cresci em um vilarejo que pertence à cidade de Marechal Cândido Rondon, no interior do Paraná, onde meus pais, entre outros moradores também de ascendência alemã, foram pioneiros na década de 50.
Da língua familiar ao aprendizado como adulta
Era comum às crianças da minha geração falarem alemão com seus pais ou familiares, mesmo que com grande deficiência gramatical e vocabulário restrito. Ao ir para a escola, o uso da língua alemã se tornou cada vez mais espaçado e foi quase esquecido. Porém, eu sempre flertava com a idéia de aprender a língua alemã.
Logo depois que iniciei o curso de História na universidade, a Secretaria de Educação do Estado propôs a substituição da língua inglesa pela alemã no ensino fundamental ( 5ª até 8ª série ), onde essa fosse ao encontro da realidade da clientela, como por exemplo na minha cidade. Não havia professores aptos, esses seriam preparados de forma intensiva, e eu era um deles. Era a minha oportunidade!
Mesmo concluindo a licenciatura em História, eu preferia lecionar alemão. O caminho de aprendizagem da língua foi árduo, longo, informal, por vezes solitário, mas eu nunca desisti. Por um lado era um desafio, por outro eu via uma perspectiva profissional melhor.
Descobertas na Alemanha
Desde as primeiras aulas no Instituto Goethe em Curitiba até hoje, vão-se 16 anos permeados por algumas viagens à Alemanha, onde participei de seminários e cursos. A formação acadêmica em Germanística foi concluída na Universidade Federal do Paraná em janeiro de 2004.
Agora estou aqui novamente, mas com um outro propósito: o de contrair matrimônio com Werner, um alemão de Bonn que conheci em uma dessas vindas . Hoje posso dizer que a maior herança que recebi dos meus antepassados foi o interesse pela língua e cultura que me renderam uma profissão, a oportunidade de conhecer o país e a cultura alemã, além de conhecer a pessoa com quem quero constituir uma família e partilhar o resto dos meus dias.

"Ich kann schon brosiliónisch", uma infância entre dois mundos

Roselaine Wandscheer narra vivências e peculiaridades do dialeto alemão falado no Sul do Brasil.


O ano de 1969 foi um grande marco na minha vida. Não porque o primeiro ser humano pisou na Lua, mas porque comecei a freqüentar a escola. Isto para os filhos de "colonos", como ainda hoje se chamam os descendentes de imigrantes alemães no Sul do Brasil, significava aprender a falar português. Finalmente havia chegado a oportunidade de me igualar com minha amiga de infância, Marilene, filha do dono da "venda", que havia aprendido o idioma com os irmãos mais velhos e pelo contato com osbrosilióner (Brasilianer, brasileiros), que freqüentavam o armazém.
Nasci em Batinga, um lugarejo de 120 famílias, quase todas de ascendência alemã. Os 19 quilômetros da estrada até a sede do município de Brochier ainda hoje são de chão batido, como quase todo o interior do Rio Grande do Sul. Nosso contato com o resto do mundo se dava através do rádio e do leiteiro, que ao passar todos os dias para recolher o leite trazia o jornal (do dia anterior) e encomendas especiais. Meu avô, o único assinante naquelas bandas, não se importava com o atraso. Lá, o mundo de qualquer forma girava muito mais devagar.
Muito não se precisava de fora, pois havia por exemplo ferraria, moinho, carpintaria e serraria no local, além disso todos eram mestres em auto-suficiência e improvisação no reaproveitamento de materiais. Já dentista e barbeiro atendiam com certa regularidade no salão de baile.
Aus der Schuul komme
Como só havia um professor, as quatro classes da escola primária tinham aula juntas na única sala do prédio, onde também funcionava a cozinha (nunca entendi por que naquele interior tão farto em alimentos recebíamos merenda escolar do governo, em forma de sopa e leite de soja). Embora o professor dominasse ambos os idiomas, éramos obrigados a falar português em aula.
Meus avós pertenceram à última geração alfabetizada em alemão. Naquela época, escola e religião corriam paralelas. Tanto, que se dizia Aus der Schuul komme (Aus der Schule kommen, terminar o primário) quando se fazia a comunhão ou confirmação (luteranos).
Era um marco importante na vida, pois se deixava de ser criança e se adquiria permissão para freqüentar o mundo dos adultos, ir a bailes e ter namorado (Schätzen haben).
Minha mãe já havia sido alfabetizada em português, mas estudou a catequese em alemão. Até os anos 70, os pastores da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil vinham todos da Alemanha, sendo os cultos, portanto, em alemão. Hoje em dia, muitas comunidades ainda oferecem serviço em alemão em ocasiões especiais.
Assimilações entre alemão e português
Há enormes variações entre os dialetos falados nas regiões de imigração alemã no Brasil, dependendo do local de onde vieram os colonizadores. Enquanto dentro do Rio Grande do Sul há locais em que se diz Sonnabend para sábado, como no norte da Alemanha, em outras só se conhece a palavraSamstag.
Ao mesmo tempo, a falta de contato com a língua-mãe e sua evolução fez com que algumas palavras simplesmente fossem esquecidas, como reicht, trocada por es chegt (chega, é suficiente!). Em vez deBonbon (bala em alemão), fala-se pale, o que está mais próximo do português. Também foram criadas palavras aportuguesadas para designar "invenções modernas" como o caminhão, que os colonos vieram a conhecer no Brasil (kamion, em vez de Lastwagen). Outras, que os alemães não conheciam ao chegar ao país, foram incorporadas ao dialeto. Servem de exemplo as palavras milhe(milho) e potreer, de potreiro (local cercado onde os animais pastam durante o dia).
Onde nasci, não se conhece a propagada expressão Mariechen, mach die janela zu, es chuvt. Em Batinga, diriam Marieche, mach der lóde (Laden) zu, das rehnt (regnet), para "Mariazinha, feche a janela, está chovendo".
Minha avó, por exemplo, entendia muito pouco em português. Certo dia, vieram "da cidade" à procura de meu avô e perguntaram: "Onde está ele?" A coitada atrapalhou-se toda, pois chamava-se Elli — que se pronuncia como "ele" — e fez mil gestos para mostrar que ela estava ali mesmo.
Móie gehen un Tee trinken
Ao contrário das cidades tipicamente alemãs, que geralmente dispunham de sociedades de canto, de atiradores ou de ginástica, as zonas rurais ofereciam aos colonos bem menos oportunidades de esquecer a dura vida no campo. Podia-se Uf die Mussik oder ufs Fescht gehen (Ir à música, ou melhor, baile, ou à festa). Havia o Naijoarspól (Baile de Ano Novo) e o Vereinspól (Baile da Sociedade de Cantores), além do Kerb, a festa da igreja, que vem do alemão Kirmes, quermesse. Nos finais de semana, os homens distraíam-se jogando cartas ou bolão, enquanto as mulheres iam tomar chimarrão nas vizinhas (Móie gehen un Tee trinken).
A festa de aniversário da igreja começava após o culto no domingo e ia até terça-feira. Havia bailes todas as noites, transmitidos ao vivo pelo rádio, e comida que não acabava mais para atender a todos os parentes.
Começava com o almoço. Após a sopa, era servido o assado, geralmente de porco, com arroz e massa caseira, salada de batata à moda alemã (com molho cozido) e outras saladas em conserva, feitas com muita antecedência. Para beber, cerveja, é claro. Mulheres e crianças tomavam suco de limão esangeri, vinho com água e açúcar, talvez um legado italiano na colônia alemã. De sobremesa, das síss(o doce) não podia faltar sagu com creme e diversas compotas de frutas. Primeiro eram servidos os homens, depois as mulheres e, por fim, as crianças.
Após uma pequena pausa, já era servido o café da tarde, comgefilte bolo (bolo recheado, torta). Diz-se também Torte, mas a palavra Kuchen (bolo em alemão) é usada apenas para um tipo de especialidade: a cuca, hoje inclusive motivo de festa típica no interior do Rio Grande do Sul. O pão de festa era o pão sovado, servido com sagu ou nata. No dia-a-dia, comia-se pão de milho. Muitas especialidades do Kerb hoje são encontradas nos cafés coloniais no Sul do Brasil.
Enquanto as festas religiosas, como o Natal, eram comemoradas com toda a comunidade no salão de baile, os vizinhos e familiares faziam juntos o pixurum da colheita (pixurum é o termo em tupi para mutirão), carneavam uma rês ou um porco, e se ajudavam nos dias de fazer schmia (o termo vem do alemão schmieren, barrar). Entre os descendentes de alemães no Sul, é a geléia de passar no pão. Ela pode ser feita à base de açúcar e frutas ou então à moda antiga, em enormes tachos a céu aberto, à base de caldo de cana e abóbora. Para variar, ou na falta de outra coisa para passar no pão, fazia-se eierschmier (um creme de ovos com farinha, leite, açúcar e banha).
Uma infância entre dois mundos
Entre os passatempos prediletos das crianças estava andar de schiesskarret, o carrinho de lomba (com rolimã). Nos campos íngremes, um esporte perigoso que podia levar a feridas feias. Para estes casos, ou os ainda mais graves, a mãe ou avó sempre tinham Mainzetrope(Mainzer Tropfen) ou ainda Springesalb (pomada Springer), sem falar nos emplastros e outros medicamentos caseiros.
O que eu sempre achei engraçado é que chamavam as pessoas pelo sobrenome seguido do nome, como Müllererwin, para Ervino Müller. Brinquedos havia poucos, pois só se ganhava presentes na Páscoa, no Natal e no aniversário. Aliás, ver a decoração do pinheiro de Natal era obrigatório. Embora não seja feriado no Brasil, ainda hoje não se trabalha em muitas localidades no interior, no segundo dia de Natal e de Páscoa, tal como na Alemanha.
É quando os afilhados vão à casa dos padrinhos buscar o päckchen (pacotinho), recheado de guloseimas, chocolates e toss no Natal (não se conhece a palavra Plätzchen, bolacha) ou de ovos ocos de galinha, coloridos e recheados com amendoim doce, na Páscoa.

O alemão lusitano do Sul do Brasil

Embora não exista entre os descendentes de alemães no Sul do Brasil qualquer unidade linguística, cidadãos bilíngües oscilam entre o uso do português e do alemão, criando vocábulos híbridos e uma sintaxe própria.


O apanhado de diferentes dialetos falados no Sul do Brasil chega a ser chamado por alguns teóricos de “riograndenser hunsrückisch”: o Hunsrück é uma região do oeste alemão, localizada perto dos rios Reno e Mosela e próxima à atual fronteira com Luxemburgo. “Riograndenser” significa “do Rio Grande”.
Apesar dos 180 anos em solo brasileiro, da mistura de diferentes dialetos entre imigrantes e do contato destes com a língua portuguesa, essa “variação intra e interlingüística”, como define o teórico Cléo Altenhofen, continua viva. Estima-se que haja um milhão de bilíngües nesta região.
Assimilação e resistência
Mesmo com o constante processo de “assimilação” destas comunidades pelo português brasileiro nas últimas décadas – que teve seu ponto alto durante a ditadura de Getúlio Vargas – o alemão falado em regiões do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná resiste.
Tema de diversas teses acadêmicas, tanto no Brasil quanto na Alemanha, o mosaico lingüístico presente em regiões rurais do Sul do país deixa entrever não apenas aspectos da cultura local, como revela detalhes da história da imigração alemã no país.
“Não existe um dialeto teuto-brasileiro unificado. A língua falada pelos descendentes de alemães é, de uma forma ou de outra, formada por diversos dialetos e misturada com o português. Os dois fatores dependem do grau de escolaridade daquele que fala. Os mais velhos, na zona rural, falam mais alemão que os jovens nas cidades.
É admirável que, em várias regiões do Rio Grande do Sul, o alemão continue sendo a primeira língua, aquela predileta na comunicação dentro da família e entre amigos”, comenta a pesquisadora Ingrid Margareta Tornquist, autora da tese Isto aprendi com minha mãe. Linguagem e conceitos éticos entre teuto-brasileiros no Rio Grande do Sul, em entrevista à DW-WORLD.
Língua da família e entre vizinhos
Em uma pesquisa realizada em 1993 por Lourdes Claudete Schwade Sufredini em Legado Antunes, uma pequena comunidade no interior de Santa Catarina, verificou-se que as variações da língua alemã ainda eram uma constante no seio familiar.
Mais de 75% dos entrevistados afirmaram falar quase sempre alemão com os pais e avós, enquanto os 25% restantes disseram fazer uso ocasional do idioma. Em várias comunidades como essa, especialistas apontam que o alemão continua sendo o idioma preferido na comunicação familiar e entre vizinhos.
Trata-se, na grande maioria dos casos, de uma mistura de dialetos de várias regiões alemãs, entre elas Hunsrück, Vestfália e Pomerânia (hoje em grande parte território polonês). Este idioma desenvolvido pelos imigrantes alemães no Brasil vem despertando o interesse de especialistas, que apontam o perigo de um desaparecimento completo destas variantes dialetais.
Já sensivelmente distante da língua oficial da Alemanha de hoje (Hochdeutsch), esse idioma teuto-brasileiro está, por exemplo, isento de quaisquer anglicismos, muito presentes na Alemanha atual. Estes, segundo Tornquist, não são nem mesmo compreendidos pelas comunidades bilíngües brasileiras.
Português “urbano” e alemão “arcaico”
“O português passou a ser símbolo da cidade, das camadas mais altas da população, do saber, da escola e de uma geração mais jovem. O hunsrückisch ficou associado às zonas rurais, à origem, à família, à solidariedade entre os grupos e às gerações mais velhas”, descreve Cléo Altenhofen o processo de “lusitanização das novas gerações” em determinadas comunidades do Rio Grande do Sul.
O respeito à língua – transmitida de geração a geração, mesmo quase dois séculos após a chegada dos primeiros imigrantes – é uma prova do caráter de “ilha lingüística” (Sprachinsel) das colônias alemãs na região Sul do Brasil.
Fenômenos semelhantes são analisados por especialistas entre os descendentes de alemães na Rússia, por exemplo, onde se observa um fenômenos semelhante ao ocorrido no Brasil: o uso de formas de linguagem arcaicas, a convergência de vários dialetos e a interferência do idioma dominante (russo e português, nos dois casos) no desenvolvimento do alemão.
Das Aviong, die Schuhloja, das Canecachen.
Alles gut?
O falante bilíngüe teuto-brasileiro se apropria com freqüência de expressões e vocábulos da língua portuguesa, já a partir do cumprimento inicial alles gut?, uma tradução literal do brasileiro tudo bem?, em detrimento da forma corrente na Alemanha de hoje, wie geht`s?, e da declinação correta alles gute(que significa tudo de bom e não como vai).
Segundo a pesquisadora Tornquist, descrições do mundo animal e da flora, bem como a denominação de meios de transporte são dois exemplos clássicos de formas híbridas usadas por essas comunidades de teuto-brasileiros, como no caso de rossa (roça/Feld), fakong (facão/grosses Messer), aviong(avião/Flugzeug), kamiong (caminhão/Lastwagen).
Entre outras apropriações estão palavras em português, cujo diminutivo é formado como no alemão:canecachen = caneca (port.) + chen (dim. alemão). Ou mesmo aglutinações híbridas como emschuhloja (loja de sapatos, sapataria) ou milhebrot (pão de milho).
Interferências sintáticas também são freqüentes, detectadas na inversão da ordem da palavras na frase ou no uso “incorreto” de preposições, como por exemplo träumen mit (sonhar com, ao invés deträumen von – sonhar de – do alemão moderno); bleiben mit Dir (literalmente ficar com você, no lugar do bleiben bei Dir).
Além disso, pode ser observada ainda uma enorme apropriação do português no uso dos verbos, que “ganham” na linguagem do teuto-brasileiro terminações em alemão: lembrierennamorierensich realisierenofendierenrespondieren.
Atlas lingüístico
É interessante notar ainda como o português falado por comunidades bilíngües se difere daquele falado por outras comunidades no Sul do Brasil: enquanto estas demonstram clara predileção pelo uso do tu, constata-se “uma variação significativa que aponta para o emprego do você nas áreas bilíngües, devido à forma de aquisição do português (padrão), que se deu durante muito tempo essencialmente via escola”, como descreve a pesquisadora Paula Biegelmeier Leão em sua tese Variação de “tu” e “você” no português falado no Sul do Brasil.
Com o intuito de catalogar as diversas variações aí presentes, foi criado o Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul do Brasil (Alers), uma co-edição da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Santa Catarina e Universidade Federal do Paraná. Com cerca de 300 mil dados orais, colhidos em 275 pontos dos três estados, o Alers procura registrar a variante lingüística dominante em cada localidade cartografada.
Além de ser um importante subsídio para o registro da história de ocupação destas regiões, o atlas serve como importante fonte de informação sobre a variedade do português falado pela população rural de baixa escolaridade em toda a região Sul do Brasil.