quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Imigração Maltesa no Brasil / The Maltese immigration in Brazil



Apesar da escassez de estatísticas fidedignas sobre os malteses no Brasil, parece que houve, com finalidades diferentes, quatro momentos da emigração de malteses ao Brasil. Pesquisa sobre este assunto, somente feita no Brasil, mostra várias dificuldades. Devido ao fato que os malteses tinham passaporte britânico, as autoridades brasileiras consideravam todos os malteses vindos ao Brasil, como britânicos ou malteses, embora a entrada sobre o lugar de origem em seu cartão de imigração dissipe essa ambigüidade. Existem ainda casos de alguns malteses que trocaram seus sobrenomes para dar uma conotação "inglesa".

Quando olhamos as listas telefônicas brasileiras encontramos muitos sobrenomes "malteses": Aquilina, Attard, Balzan, Bonello, Bonici, Calleja, Caruana, Cassar, Falzon, Fenech, Friggieri, Galea, Grech, Grima, Mallia, Meli, Muscat, Pirotta, Pisani, Said, Saliba, Sammut, Schembri, Spiteri, Tabone, Vassallo, Vella, Zahra, Zammit. Mesmo que a pronuncia acima for considerada ipsis litteris, devemos interpretar a existência destes sobrenomes com muita cautela, pois em São Paulo encontramos a convergência de emigrantes italianos, sicilianos, libaneses, sírios, portugueses, espanhóis, franceses, japoneses e outros. Por exemplo, Saliba é um sobrenome muito comum em Malta mas quando foram tentados contatos com famílias com esse sobrenome verificou-se que se tratava de pessoas oriundas ou do Líbano ou da Síria.



Uma importante fonte de informação no Brasil consiste nos Livros de registro da Hospedaria do Bom Retiro e da Hospedaria dos Imigrantes do Brás, ambas em São Paulo. A primeira Hospedaria registra todos os imigrantes que chegaram em São Paulo entre 1882 e 1886 e a segunda os que chegaram entre 1887 e 1978. Todos os livros de registro estão atualmente na segunda hospedaria que ficou conhecida como Museu dos Imigrantes. Mais de dois milhões de imigrantes receberam abrigo nesta Hospedaria antes de serem transferidos para as fazendas no interior de São Paulo.
Hospedaria dos imigrantes em São Paulo
É importante saber que estes registros limitam-se às pessoas que chegaram no porto de Santos (uns 80 km da cidade de São Paulo) e que foram abrigadas normalmente durante uma semana antes de serem aceitas nas fazendas de café. Os imigrantes que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Recife ou Salvador, por exemplo, não foram elencados nesses registros.





Não é difícil encontrar um avô ou bisavô que atravessou o Atlântico para trabalhar no Brasil, às vezes, mais de um século atrás. Coloque o sobrenome onde há “chefe da família” e encontrará todos os membros da família que chegaram com ele. Encontrará o nome, a idade, o nome do pai ou da mãe, parentesco, lugar de nascimento, data de chegada, nome do navio, o nome da fazenda onde a família foi, o nome do fazendeiro etc. Às vezes tem de usar um pouco de malabarismo no sobrenome: Zamit, Zammit, devido à grafia do escrivão da época.

Por exemplo, sob o sobrenome Schembri, encontrará Pacifico Schembri (41 anos, nascido em 16 de fevereiro de 1871, agricultor), filho de Vincenzo, e sua mulher Giuseppa (38 anos, nascida no dia 1 de junho de 1974); chagaram também seus filhos Marcella (6 anos, nascida em 2 de fevereiro de 1906), Giuseppe (4 anos, nascido em 24 de março de 1908) e Vincenza (2 anos, nascida em 26 de outubro de 1910), moradores de Musta (sic), todos analfabetos. Chegaram no navio Provence no porto de Santos no dia 28 de abril de 1912. Foram à Fazenda Santa Eulália (propriedade de Cyro Resende) em Brotas SP. O registro da família: 51310. 


A primeira emigração ao Brasil

A primeira emigração de malteses ao Brasil aconteceu na década de 1910. No surgimento da emigração européia em massa para a América do Sul nas últimas décadas do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, o Comitê Maltês de Emigração enviou 30 famílias, constituídas de trabalhadores rurais, para mandar ao Brasil. No dia 28 de março de 1912 um grupo de 73 emigrantes constituído de 13 famílias partiu de Valletta no navio francês ss. Carthage para o porto de Santos, no Brasil. Padre Pietro Paulo Charbon de Birkirkara acompanhou o grupo. Após serem transferidos ao navio transatlântico ss. Provence, chegaram em Santos no dia 28 de abril de 1912. No dia 18 de abril de 1912 outro grupo de 106 pessoas deixou Malta e chegou em Santos no navio Aquitaine no dia 19 de maio de 1912.


O primeiro grupo foi trabalhar nos cafezais da fazenda Santa Eulalia, cujo proprietário foi 
Cyro Mendes de Rezende, no município de Brotas, a cerca de 183 km da cidade de São Paulo
O segundo grupo foi para o mesmo trabalho rural na fazenda São José em Fortaleza. Propriedade de João Manoel de Almeida Barbosa. Mas, as saudades da terra natal, as informações precárias, a incompatibilidade e a falta de uma política clara de emigração por parte do governo inglês em Malta, causaram o fracasso desta emigração. Em agosto de 1913, a emigração para o Brasil tinha terminado. Muitos voltaram a Malta, outros ficaram e se viraram.


Os municípios de Araraquara e Brotas ficam no interior do estado de São Paulo e ferviam de atividades agrícolas e industriais no início do século 20. As cidades nasciam literalmente no meio dos cafezais nos anos de 1820. Igrejas e escolas primeiras foram construídas até meados do século 19e planos foram feitos para a passagem do trem para levar e trazer passageiros de São Paulo e para o transporte de milhões de sacas de café. Na primeira década do século 20, a iluminação pública, água encanada e linhas telefônicas estavam instaladas.
A igreja matriz de Brotas em 1910

Em 1870 milhares de imigrantes italianos foram transportados para as fazendas destes municípios e de outros para trabalharem nas fazendas embora ainda houvesse escravos nas redondezas. Quando a Abolição dos Escravos foi proclamada em 1888, mais e mais italianos foram admitidos nas fazendas do interior do estado de São Paul. Em 1910 os municípios da região de Brotas e de Araraquara exportavam, milhões de sacas de café e os fazendeiros pediam ao governo do estado permissão para abrir mais terra para o plantio 
devido à demanda mundial de café.  As fazendas onde os malteses ficaram tinham centenas de milhares de pés de café, abrigos para os trabalhadores e maquinas para o beneficiamento do café para exportação. Eram tempos difíceis devido à mentalidade dos fazendeiros que funcionavam conforme o sistema econômico anterior caracterizado pela escravidão. Os malteses que chegaram em brotas e em Araraquara em 1912 não encontraram nenhum Eldorado mas um lugar onde as pessoas tinham de trabalhar duro e ganhar um dinheiro suficiente para mais tarde comprar um pedaço de terra e viver como sitiantes autônomos.


A segunda emigração ao Brasil

A segunda emigração maltesa ao Brasil aconteceu no final dos anos 20 e foi praticamente ligada ao empreendimento britânico da construção e manutenção da estrada de ferro do Estado de São Paulo. Quase todos os malteses presentes no Brasil chegaram a conhecer o Sr. Dominic Colier (ou Coleiro) de Floriana. Ele tinha um cargo administrativo na companhia da ferrovia que ligava São Paulo a Santos e ao Estado do Paraná. Viveu os últimos anos de sua vida como aposentado pago pelo governo britânico.

Padres e irmãs malteses junto com o Sr. Dominic Colier (terceiro da esquerda)


A terceira emigração ao Brasil

A terceira imigração de malteses ocorreu após a crise do Canal do Suez em 1956. Muitos malteses e descendentes de Malteses, com passaporte britânico e que viviam no Cairo, Alexandria e em outras cidades egípcias, chegaram ao Brasil para tentar a sorte. É o caso de Oscar Sammut do Cairo que chegou a Santos no dia 14 de maio de 1957 e de Saviour Francesco Borg, nascido em 27 de fevereiro de 1923, eletro-mecânico, que chegou de Alexandria com seu irmão George Vincent John Borg, estudante, no dia 10 de abril de 1958.


A quarta emigração ao Brasil

A quarta imigração aconteceu nos anos 1950 e foi completamente diferente das anteriores. Nos anos 50, Dom Geraldo Sigaud, então bispo de Jacarezinho no extremo nordeste do Estado do Paraná, convidou as Irmãs Franciscanas de Malta para ajudá-lo na diocese que estava se desenvolvendo e tornando-se uma grande região econômica.


Nos anos 20 o norte do Estado do Paraná era coberto de mata densa e uma enorme floresta. A terra foi comprada pelo Sindicato Sudanês de Plantação de Algodão, liderado por Simon Joseph Fraser (Lord Lovat) que planejou o seu desenvolvimento conforme normas bem estabelecidas. Milhares de emigrantes da Europa e do vizinho Estado de São Paulo começaram a comprar terras, transformando-as em cafezais, vilas e cidades. A área até então habitada por centenas de índios Guarani e Kaingang foi invadida por milhares de pessoas, no período de trinta anos. A Igreja Católica já estava presente na região (durante o período imperialista espanhol) no início do século 17 com mais de 13 reduções jesuíticas para os índios Guarani. Os bandeirantes, escravagistas de São Paulo, acabaram com esse experimento em 1630 quando invadiram e destruíram as missões jesuíticas e escravizaram milhares de índios.

Inútil dizer que as necessidades espirituais deste povo eram grandes e a Congregação Franciscana de Malta ofereceu mandar algumas irmãs a Rolândia e Jaguapitã. Mas em 1956 esta enorme diocese foi subdividida em três: a diocese de Jacarezinho, Londrina e Maringá. Exatamente no início da diocese de Londrina, o Seminário Arquidiocesano de Malta mandou dois seminaristas, John Busuttil de Rahal Gdid e John Xuereb (falecido) de Naxxar, para estudar teologia no Seminário Diocesano de Curitiba, capital do Estado do Paraná. Foram ordenados sacerdotes em 8/7/1962 por Dom Geraldo Fernandes, então bispo de Londrina.

Ele tinha ido a Malta e convidou sacerdotes e seminaristas para irem ao Brasil. Em 1959 veio ao Brasil o Pe. Carmel Mifsud de Zejtun. Em 1961, Bernard Gafá de Msida, Carmel Mercieca de Qormi, Francis Debattista (falecido em 1970) de Tarxien, Joseph Agius de Munxar e Joseph Xuereb, dois seminaristas de Gozo, começaram o curso de teologia em Curitiba. Ao mesmo tempo, Pe. Peter Fenech (falecido em 2009) de Dingli e Pe. Frank Tabone Adami de Gzira começaram trabalhar em cidades novas do norte do Paraná, junto com Pe. George Zammit (faleceu em 1993) de Birzebbugia.

Colégio Bom Jesus ,Santo Antônio de Rolandia Paraná
Nos anos 50 e 60, o espírito missionário das Irmãs Franciscanas incentivou-as a fundarem creches e escolas não somente nos locais acima mencionados mas também nas cidades de Presidente Prudente (no sudeste do Estado de São Paulo), São Martinho, Umuarama e Curitiba.


Casa São Domingos,Vila Centenário Curitiba,Paraná
Do outro lado, a Província Maltesa dos Dominicanos mandou muitos dos seus padres, entre eles Dom Walter Ebejer a diocese de Goias em 1954. Depois eles trabalharam também nas dioceses de Paranaguá, Ponto Grossa e Curitiba, todas situadas no sul do Estado do Paraná.Ainda trabalharam nas dioceses de Londrina, Apucarana, Borrazopolis e Faxinal, situadas no norte do Paraná .Clique aqui para acessar o site dos Frades Dominicanos no Brasil.

Os Agostinianos mandaram os seus padres para o Estado do Mato Grosso na cidade de Três Lagoas onde uma enorme barragem estava sendo construída e onde tinha uma grande concentração de trabalhadores com suas famílias. Foram mandados padres também para as cidades de São Paulo e Belo Horizonte no Estado de Minas Gerais.

Paralelamente aquilo que estava acontecendo no sul do Brasil, padres da ilha de Gozo estavam atendendo o convite de Dom Carlos Coelho e Dom Helder Câmara, bispos de Olinda e Recife em Pernambuco, estado do nordeste do Brasil. Pe. Paul Raggio era o único sacerdote maltês em Recife naquele tempo.

Voltando aos meados dos anos 60, o espírito do Vaticano II impulsionou vários seminaristas a deixarem a sua pátria e ir ao Brasil. Thomas Bonnici de Zebbug, Paul Pirotta de Naxxar, Paul Brincat de Birkirkara, Carmel Bezzina (falecido em 2005) e Philip Said de Zebbug, Peter Camilleri de Floriana (trabalhou em Recife, Manaus e Itabuna e faleceu em 1992), Edwin Parascandalo e Vincent Costa, ambos de Birkirkara, Lawrence Gauci de Mgarr, Joe Cassar de Pawla e Joe Vella de Attard, vieram ao seminário de Curitiba e após fazerem teologia, começaram a cuidar de paróquias no norte do Paraná. Michael Pace de Hamrun e Briffa Mario (falecido em 2003) de Pawla vieram para o seminário de São Paulo.

Por causa da subdivisão da diocese de Londrina naquela de Apucarana e Londrina, muitos foram transferidos para a diocese de Apucarana e outros como Dominic Camilleri (falecido em 2004) de Floriana, Lucas Azzopardi de Rabat e Michael Pace de Hamrun estão ainda trabalhando na mesma diocese. Dois missionários leigos, Tony Camilleri de Floriana e Anton Sammut de Gzira, vieram para ficar dois anos em Apucarana ajudando no trabalho pastoral. Depois de um ano, Anton Sammut (falecido em 1976; uma rua tem o seu nome no bairro Jardim Tietê, São Paulo) foi para o seminário de São Paulo, onde estudou teologia.

A Arquidiocese de São Paulo e outras dioceses vizinhas receberam sacerdotes malteses como Xavier Cutajar, Daniel Balzan, John Mallia, Andrew Zammit e Paul Mercieca.

Em 1977 o padre maltês da ordem dos Domincanos, Walter Ebejer, irmão do falecido escritor Francis Ebejer, foi consagrado bispo da diocese de União de Vitória no sul do Paraná. Como bispo emeritus, mora em Porto União SC.

Após muitos anos de trabalho diocesano em Mosta e St. Julians, o Pe. John Caruana de Mosta decidiu vir ao Brasil em 1984 e trabalhou na Arquidiocese de Maringá e na diocese de Guajará-Mirim Estado de Roraima. Ele está agora em Malta trabalhando em um estudo sobre malteses que dedicaram suas vidas à Igreja de Cristo em países estrangeiros.

Após muitos anos a serviço da diocese de Maringá, o Pe. Vicente Costa foi eleito bispo auxiliar de Londrina (1998); foi transferido para chefiar a diocese de Umuarama em 2002; em 2010 tornou-se bispo de Jundiaí SP.

As Irmãs Agostinianas de Malta que tinham um internato para meninas em Paranaiba, no Estado do Mato Grosso do Sul, agora tem outras responsabilidades pastorais em Nova Londrina, no Estado do Paraná.

Além dos padres acima mencionados, tem ainda alguns malteses casados no Brasil. John Busuttil trabalhava como contador na Volkswagon em Santo André e quando se aposentou montou um pequeno restaurante num bairro de Londrina. Paulo Pirotta trabalha na Volkswagon em Santo André. Thomas Bonnici é professor de literatura inglesa na Universidade Estadual de Maringá. Edwin Parascandalo é proprietário de um restaurante em Maringá após dedicar-se como diretor no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. Anthony Zammit e sua irmã Helen moram em São Paulo. Ele trabalha na Felixal e ela é telefonista. Dr. Vincent Flores Porsella é professor da Universidade Mackenzie em São Paulo e pensionista do Departamento de Educação.

Outros brasileiros de origem maltesa moram no Brasil. Se quiser, poderá nos informar sobre a origem de sua família como foi transmitida por seus genitores. Colocaremos seu nome e o de sua família na lista de malteses no Brasil.


Consulados no Brasil 

 Consulado Honorário da República de Malta - Recife - PEEndereço:Av. Agamenon Magalhães, 2396 Cidade:RecifeEstado:PernambucoCep:52050-000Telefone:(0xx81) 3083-3232 Email:maltaconsul.recife@gov.mtSite: www.maltaconsulrecife.euJurisdição:PE, PB e AL
Jurisdição: PE, PB e AL.


 Consulado Geral da República de Malta - São Paulo - SPEndereço:Rua Xavier de Almeida, 227 - IpirangaCidade:São PauloEstado:São PauloCep:04211-000Telefone:(0xx11) 3554-2736 Fax:(0xx11) 2914-4420 Email:maltaconsul.saopaolo@gov.mt
Jurisdição: Todo território brasileiro.






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