segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Sapateiros" gaúchos têm origem alemã

Artesãos vindos da Alemanha foram os primeiros capitalistas do Vale dos Sinos. Influência alemã na indústria coureiro-calçadista permanece até hoje.


A história dos 15 municípios do Vale dos Sinos está estreitamente vinculada à indústria coureiro-calçadista, que se desenvolveu na região a partir da vinda dos primeiros imigrantes alemães, em 1824. Essa indústria passou por muitas transformações, com fases de grande sucesso e profundas crises, mas não perdeu de vez as suas raízes germânicas. Esta avaliação foi feita pelo professor Ênio Klein, consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), em entrevista à DW-WORLD.
A tradição de fabricar calçados, trazida da Alemanha, encontrou terreno fértil no Rio Grande do Sul. Segundo Klein, como os portugueses, espanhóis e gaúchos já criavam gado para produção de carne na fronteira oeste do Estado, havia pele em abundância. Da pele passou-se a produzir o couro e, deste, os artefatos de couro, como selas, arreios, mochilas para cavalo, utensílios para montaria e para as carroças, bem como botas para os regimentos de infantaria.
Canhão puxado a tira de couro
Para Klein, "o cavalo e a guerra foram os primeiros mercados para os produtos do couro, porque no Rio Grande do Sul sempre tivemos muitos conflitos entre o Brasil e a bacia do Prata". Ele cita, por exemplo, a guerra no Uruguai em 1828, a Revolução Farroupilha (1835–1845), a guerra contra a Argentina (1850–51), quando o Brasil contou com a ajuda dos Brummer, e a Guerra do Paraguai (1865–1870). "Até para puxar o canhão usavam-se tiras de couro", lembra Klein.
Os "sapateiros", como eram chamados os pioneiros até o início do século 20, trabalhavam para abastecer o mercado local e regional. Partindo do artesanato, da manufatura inicialmente caseira, passaram a industrializar a produção, criando as primeiras fábricas. Na opinião de Klein, o imigrante pobre, que veio trabalhar a terra, mas também era artesão, foi "o primeiro capitalista na região".
Depois da Segunda Guerra Mundial, como havia o grande mercado brasileiro a conquistar, as empresas do setor desenvolveram também sapatos mais socais – antes só faziam botas militares. Segundo o consultor da Abicalçados, o Vale do Rio dos Sinos tem hoje a maior concentração de indústrias coureiro-calçadistas de toda a América. "A formação desse capitalismo, fundado pelo colono-artesão, que passou a empregar gente da mesma origem, quase sem conflito entre capital e trabalho, ainda não foi devidamente pesquisada", constata Klein.
Segundo ele, o imigrante alemão impulsionou o avanço industrial, através de seu espírito comunitário, pela criação de escolas técnicas, centros tecnológicos, cooperativas de crédito, formação da mão-de-obra e realização de feiras. "Esse enorme esforço coletivo foi decisivo para o desenvolvimento. Hoje há empresas gaúchas expandindo suas atividades até para o Nordeste, onde no passado teve início o ciclo do couro. Foi, portanto, uma contribuição para todo o Brasil, não apenas para o Vale dos Sinos ", diz o professor.
Influência duradoura
Klein divide a contribuição alemã ao desenvolvimento industrial e à formação da nação brasileira em duas fases. "Até a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nos mandou gente, colonos; nos últimos 50 anos, ela nos mandou capital." Hoje estima-se que em torno de 20% do PIB brasileiro é gerado por empresas ligadas à Alemanha, diz.
A nova geração de executivos que comanda a indústria calçadista despediu-se dos métodos de produção e gerenciamento dos antigos "sapateiros", mas o que ficou, segundo Klein, é a consciência de qualidade e o espírito cooperativo. "A influência fica. Os novos manager não negam a sua origem; pelo contrário, são orgulhosos de ser descendentes de alemães. É claro que, no jogo com a Alemanha, são sempre brasileiros", afirma.
Klein lamenta que a indústria coureiro-calçadista gaúcha, sobretudo no período de euforia dos anos 70 e 80, tenha se subordinado excessivamente aos interesses dos importadores norte-americanos, em detrimento das relações comerciais com a Alemanha. "Isso foi um erro e um desrespeito, não só para com o mercado alemão, mas sim até com o mercado brasileiro", diz.
Sapatos verdes
Nos últimos anos, depois que a produção chinesa começou a tomar o lugar do sapato brasileiro nos Estados Unidos, o interesse pela Alemanha e União Européia está aumentando. Na tentativa de redirecionar sua inserção no mercado internacional, os "sapateiros" gaúchos confrontam-se, justamente no país de seus antepassados, com a necessidade de terem também uma consciência ecológica.
"Todos os curtumes do Rio Grande do Sul hoje têm estações de tratamento. Essa preocupação com o meio ambiente é forte, sobretudo, no Vale dos Sinos, onde as prefeituras, entidades ecológicas e sindicatos se preocupam, principalmente, com os resíduos sólidos da indústria coureiro-calçadista. A questão dos resíduos líquidos está praticamente resolvida. Isso é importante, porque o mercado alemão exige altos padrões ecológicos e sociais na fabricação dos produtos importados."

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